Podemos, entao, afirmar que os debates sobre os consensos da sociedade civil e sobre a sua organizacao em prol dos direitos politicos nao foram exclusivos da decada de 1980, como se quis supor a partir do processo da chamada "abertura politica" no Brasil apos o periodo ditatorial.
Sempre com destaque ao papel das entidades representativas, organizadas pela sociedade civil, tais como a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), a Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (Alaic) e a Federação Lusófona de Ciências da Comunicação (Lusocom).
Dagnino (2004), ao analisar o Brasil no que se refere à sociedade civil, participação e cidadania, identifica a existência de "dois processos políticos distintos": um projeto de Estado mínimo a partir de 1989 com a eleição de Collor, com o encolhimento de responsabilidades sociais do Estado e sua transferência para a sociedade civil, e outro de "alargamento da democracia, que se expressa na criação de espaços públicos e na crescente participação da sociedade civil nos processos de discussão e de tomada de decisão relacionados com as questões e políticas públicas".
Por esses meios, a elite estatal possui uma independência em relação à sociedade civil que, embora não seja absoluta, não é menos absoluta que o poder de qualquer outro grupo maior.
Conhecedor da realidade dos artesãos e produtores da arte popular, Canclini desmonta esquemas explicativos viciados sugerindo, por exemplo, que o consumo não é eco de uma política cultural ou de uma manipulação perversa, mas, antes, efeito de coincidências e cumplicidades entre a sociedade civil e o Estado.
Devia, portanto, democratizar-se abrindo suas instituições à participação da sociedade civil organizada, com vistas a amenizar os efeitos colaterais de uma suposta modernização ou progresso social, já que os prognósticos, desde os bastidores da ditadura militar brasileira, indicavam que o impacto dessa forte mudança causaria inumeráveis conflitos políticos e desajustes sociais, visto que essa forma de desenvolvimento acentuaria, entre outros: a desestruturação nos núcleos familiares, a crescente pobreza, o êxodo rural e mudanças de valores.
207): A sociedade moderna, na sua identidade educativa e no seu desejo de pedagogização, atribui assim um papel central à família e à escola, renovadas na sua identidade, mas estende a sua ação conformativa também a muitos outros âmbitos, até o do trabalho (com o sistema de fábrica e a elaboração de regras funcionais aos tempos e às funções da máquina) ou do tempo livre (com o desenvolvimento do associacionismo, que torna não ocioso e programado também o tempo de mão-trabalho); realizando assim um projeto cada vez mais explícito, cada vez mais vasto, cada vez mais ambicioso de controle e conformação de toda a sociedade e colocando depois nas mãos do Estado o projeto de pedagogização da sociedade civil.